Por Arthur Araújo

Entrevistada pelo professor Francisco de Assis (FIAM-FAAM), doutor em gênero diversional e ex-orientando de José Marques de Melo, a professora Lia Seixas usa a metáfora do Tangram para explicar o funcionamento do gênero jornalístico, revisando argumentos de sua tese com base no contexto contemporâneo. A reflexão, que vai integrar o e-book “Fundamentos e práticas jornalísticas: aulas-entrevistas com acadêmicos”, pode ser conferida abaixo. Durante a conversa, Seixas reafirmou sua defesa de que a concepção de gêneros jornalísticos está baseada tanto em critérios linguísticos quanto extra-linguísticos. Ela reforça os gêneros como formação discursiva, destacando a importância das finalidades do formato e do campo nessa construção.

A entrevista é uma das oito que compõem o livro, que será lançado ainda este semestre pela editora Insular, com acesso gratuito. Elas foram realizadas durante a disciplina “Análise de produtos midiáticos”, oferecida no Póscom UFBA no primeiro semestre de 2023 pela professora Lia, que foi responsável pela condução das outras sete conversas. Participaram os professores David Domingo (ULB), Roseli Fígaro (USP), Beatriz Marocco (Unissinos), Julian Durazo Hermann (UQAM), Marli dos Santos, (Cásper Líbero), Marcos Paulo da Silva (UFMS) e Francisco Assis (FIAM-FAAM). 

Na edição, houve o cuidado para trazer em referências conceitos, autores, tudo o que pode auxiliar o estudante de jornalismo a compreender melhor a problemática teórica dos gêneros jornalísticos.

A questão dos gêneros tem se mantido como uma pauta das discussões acadêmicas ao longo dos últimos 60 anos, mas com momentos de pico. Em algum momento a gente percebe uma discussão mais intensa, estudos, pós-graduados que se dedicam a esse objeto, depois dá uma arrefecida, as coisas ficam um pouco mornas, e de repente vem algum outro evento que faz esse objeto retornar à pauta. Na metade dos anos 2000 havia realmente uma expectativa bastante grande em torno da tese da Lia, porque se esperava outro olhar para a questão. Até então ela estava muito ainda pautada naqueles critérios dos anos 80. Então eu considero de fato que a Lia deu esse salto qualitativo.

Das muitas coisas que a tese traz como um elemento muito importante é o conceito de formação discursiva jornalística, um conceito que vem da matriz francesa. Então, nesse horizonte do pensamento, da sua localização, a primeira pergunta é justamente uma provocação para a gente pensar o que a gente tem a aprender com a tradição francesa para pensar as formas do fazer jornalístico. A questão está formalizada dessa maneira: quais são os aspectos diferenciadores dessa perspectiva em relação à tradição ibero-americana, que é mais forte no Brasil, de compreensão dessas formas do fazer?

Eu considero que os aspectos definidores constituem o que tem de extralinguístico no fazer jornalístico, porque, até então, a discussão ibero-americana foi sempre pautada pelo linguístico. É como se fosse o Tangram, aquele quebra-cabeça chinês de sete peças, que unidas viram uma figura e unidas de outra maneira viram outra. Pode ser um gato. Pode ser um coelho. Eu posso trabalhar com diferentes formatos. Eu entendo que há uma combinação regular de peças, que são os critérios. Eu sugeri quatro. No fundo tem cinco ali. Cada combinação permite um gênero. Então, essa é a minha concepção. O conceito de formação discursiva é esse, trabalha, inclusive, com quatro dimensões. O Foucault (1969) pensa nessas quatro e pensa exatamente nisso. Eu demorei de entender que, no fundo o conceito é esse. Está lá, é formação discursiva[i].

São quatro elementos. Os nomes não são muito bons e eu penso em mudá-los: lógica enunciativa, força argumentativa, identidade discursiva e potencialidade do mídium. Na minha concepção, a lógica é igual à do Tangram. Mas não seria um Tangram bidimensional, seria um Tangram em terceira dimensão. Por que eu digo isso? Porque, na minha concepção, esses quatro critérios estão relacionados a outros elementos que estão combinados e parecem um elemento só. Por exemplo, finalidades. Finalidades do campo e finalidades da composição discursiva. Finalidades do formato a gente pode dizer também. Para mim, talvez, esse deve ser, inclusive, um quinto elemento. A questão é que a finalidade do campo está relacionada. Na tese, em 2009, eu sugeri que a lógica enunciativa é composta por uma dada relação frequente entre três outros elementos: objeto de realidade, tópicos jornalísticos e compromissos realizados. Isso deixa tudo muito confuso.

Mas do que eu estou tratando aqui? Quando eu falo objeto de realidade[ii], estou tentando, nesse momento, discutir que a realidade não é feita só de fatos, como a maioria dos textos de estudos do jornalismo. Existem muitos tipos de objetos, que tornam a realidade mais complexa. Até mesmo coisas. Então, não precisa necessariamente ter uma ação, que acontece num tempo e espaço determinado, como a gente acreditava, como a gente tem lido em vários estudos. Isso me incomodou muito sempre. A ideia de objetos de realidade, para mim, levanta a discussão dos tipos de objetos com os quais a gente se defronta na realidade. Não tinha a intenção de fazer uma lista, embora eu tenha feito, porque é ridículo. Mas pelo menos chamar a atenção de que não são só fatos, eu acho que já é um ganho.

Depois, essa ideia de tópicos jornalísticos. Vem da ideia de topoi, de senso comum, da retórica. Aqui, o propósito foi dizer que os tópicos são como senso comum da comunidade de sentido jornalística. Não sei se eu manteria novamente. É uma das discussões que eu tenho comigo mesma. Sobre os compromissos, a gente vai falar um pouquinho mais porque tem uma relação grande com a pragmática, com a teoria da ação verbal, a teoria de Austin (1970). O que eu quis mostrar é que, mesmo uma afirmação é uma das ações verbais mais realizadas pelo jornalista. Mesmo que o jornalista não saiba ou não tenha certeza, tem que afirmar sobre a realidade. Essa afirmação não é só verdadeira ou falsa. Existem muitos atos verbais que o jornalista realiza e que podem ser compreendidos como um fazer que, não necessariamente, tem sempre uma relação de verdadeira ou falsa com a realidade.

Eu quis dar o exemplo da lógica enunciativa para dizer isso. O que eu quis dizer é que a ação verbal de afirmar, uma das mais frequentes, marca um compromisso. E muitas vezes o jornalista acha que não tem esse compromisso. Só que, infelizmente, acabou que uma das coisas que eu considero mais importantes hoje está em força argumentativa: quando a gente pode destrinchar um formato a partir dos objetos de acordo e desacordo. Vem da retórica, mas quem criou isso, na verdade, foi a nova retórica com Perelman e Olbrechts-Tyteca (1990).  Na minha visão, quando a gente tem parâmetros no saber social, a gente tem a condição de decidir e, geralmente, esses são objetos chamados de objetos de acordo. Por exemplo, a temperatura. Eu posso dimensionar e eu tenho um instrumento para isso. Isso está inscrito no saber social. Quando o objeto não é de acordo, mas de desacordo, o jogo de enunciação muda, passa a virar crença. Essa discussão de crença verdadeira justificada é, para mim, exatamente isso. Na verdade, a crença vai colada na imagem pública, na autoridade do autor, de quem assina, de quem aparece como autor, que aparece, muitas vezes, mais do que o próprio produto. Por isso entrou esse elemento da identidade discursiva. A ideia da formação discursiva, para mim, quer dizer isso: quando eu junto os elementos de uma determinada maneira, eu tenho um gênero. Quando eu combino de outra maneira, eu tenho outro gênero. Eu creio que a ideia de formação discursiva ajudou muito a pensar isso.

Achei a metáfora do Tangram muito interessante. Na verdade, é uma organização. A gente pode pensar a formação como sinônimo de organização. O jornalismo organiza o caos do mundo em narrativas, discursos, relatos. Essa é uma forma de organização, mas que não é destituída de outras ações ou de elementos que compõem essa ação. Então, aquelas ideias de senso comum, que dizem que o jornalismo tem que ser neutro, a questão da imparcialidade, tudo é muito redutor, porque desconsidera o que está acontecendo dentro do jornalismo. É uma forma de organização que desconsidera todos esses elementos. Lembro daquela clássica frase, que ainda às vezes é repetida, que diz que no jornalismo os fatos são sagrados e a opinião é livre. Com o tempo se percebeu que os fatos não são tão sagrados assim e a opinião também não é tão livre. Tem aí esses outros elementos que são justamente os que você chama de elementos extra-linguísticos. Assim, cheguei ao ponto em que eu quero reapresentar a pergunta. Do ponto de vista da pesquisa, do ponto de vista metodológico, como nós fazemos para capturar esses elementos extra-linguísticos? Haveria uma forma específica para isso? A que nós deveríamos estar atentos para poder fazer essa captura desses elementos que fogem aí da materialidade do texto propriamente dito?

Eu posso dar um exemplo desses elementos. Para mim, finalidade é um elemento extralinguístico. Por quê? Para mim, existem duas dimensões da finalidade: a finalidade do campo, que está no nível do saber social, intersubjetivo. Eu defendo que existe um saber social intersubjetivo. Com este saber a gente cria parâmetros. Quem trabalha muito com essa noção é a estética da recepção[iii], estudos culturais também. Essa concepção de que existe um saber compartilhado.  Eu acredito nesse saber compartilhado. Nesse sentido, a gente tem parâmetros que são compartilhados e sobre os quais a gente nem questiona, porque já tem muito tempo e eles se tornam, como diz o pessoal da Nova Retórica e do Tratado da Argumentação, verdades estáveis[iv]. Eles trabalham com o conceito de verdade estável há muito tempo, muito antes de se pensar qualquer coisa sobre fake news. Em 1990. A estabilidade da verdade está tão menor que parece que está se dando agora. Finalidade tem essa dimensão, que eu considero como dimensão do campo. A gente tem trabalhado no NJor com a tese Gisele Reginato[v], que fez o doutorado com a Márcia Benetti. Ela fez uma sistematização que a gente considera muito interessante. Sugeriu 12 finalidades, mas, na minha concepção pessoal, não é a melhor parte. Porém, ela destaca, por exemplo, que verificar a realidade, fazer a verificação da informação, seria uma finalidade. Bom, mas isso está embutido. Qualquer trabalho jornalístico, informativo, em princípio, tem que verificar. Porém, desde 2018, com as fake news, a gente passou a ter organizações, empresas, arranjos jornalísticos, só para verificar.

Então, pode-se dizer que as finalidades têm uma instabilidade na sociedade, se atualizam constantemente. Algumas podem ser mais importantes em determinado momento e outras menos. É nisso que eu acredito. Acredito que existe uma relação entre a finalidade do campo e a finalidade do formato. O reconhecimento do formato é um reconhecimento relacionado às principais finalidades no nível do formato e principais relacionadas às finalidades no nível do campo. Como é que se dá essa relação? Isso eu não sei ainda, mas para mim essa diferença é óbvia. Quais são as finalidades do campo? Bom, a Reginato sugeriu 12 e a gente pode pensar, discutir com ela. O Schudson[vi] sugeriu sete. Um dos exemplos bem interessantes para nós é a diferença entre reportagem e notícia. Reportagem: qual é a finalidade principal da reportagem? Investigar? Mas tem outras, informar também é finalidade. E se a reportagem começar com o dito relato humanizado? A empatia social vira finalidade?  A gente pode reconhecer que um formato tem uma finalidade principal e outras finalidades secundárias. Essas finalidades, na minha concepção, estão relacionadas às finalidades do campo. Fácil de resolver isso? Não, não é. Mas é um exemplo de extralinguístico, entende? Acho que o grande problema da gente na discussão de gênero é a relação entre o extra e o linguístico. Como isso se dá.

Concordo com você. Me lembro que no último encontro da Intercom, nós fizemos uma reflexão que tocou em aspectos semelhantes. Eu acho que a resposta àqula pergunta que eu fiz passa por aí. Se ela não está exclusivamente aí, ela passa por aí, justamente essa relação entre esses elementos linguísticos e extralinguísticos. Eu acho que, de alguma maneira, as considerações feitas durante essa disciplina nos oferecem algumas pistas para definir critérios metodológicos, evidentemente, para delimitar esse contexto de relação. Mas passa pela relação. Eu concordo muito com essa percepção porque acho que o grande problema das classificações é que elas, de fato, não se preocupam com isso e as suas fragilidades estão nessa desatenção à relação entre esses elementos, que a gente poderia traduzir talvez, nos termos da pesquisa que nós trazemos, com os conceitos de forma e conteúdo. É pensar a forma e o conteúdo como uma relação. Porque fora dessa relação, de fato, qualquer classificação é muito apressada. Ela não avança além de uma superfície mais ou menos profunda.

Eu não sei se eu veria como forma e conteúdo, embora seja parecido. Porque, por exemplo, a finalidade, que está fora do texto, não exatamente tem a ver com o conteúdo, mas tem a ver com a prática. Por exemplo: verificar a declaração, verificar um texto que foi discursado. Sabe? Tem uma discussão ali em torno do conteúdo, mas é prática no sentido de verificação. É uma apuração. Essa dicotomia, Francisco, entre forma e conteúdo, não creio seja produtiva. Eu estou pensando no sentido da dinâmica do fazer jornalístico. Sabe?

Sim. Eu visualizo essa dinâmica justamente como o elemento que vai estabelecer essa relação.  Tomando o jornalismo de verificação, Thais Seibt[vii] defende que há um novo paradigma. É interessante porque, como você bem colocou, a verificação sempre existiu. Porque é óbvio: se o jornalismo tem, historicamente, o compromisso de dizer coisas que aconteceram, que a gente pode chamar dessa verdade estável, ou de verdade partilhada, ou o que seja, precisa checar, precisa verificar. Mas a argumentação dela, que eu acho interessante, é que o contexto contemporâneo ressignificou essa dimensão do verificar e potencializou isso para uma prática específica de jornalismo. Quando eu olho, por exemplo, a Lupa, vou ver lá uma verificação que eles fizeram, e é por isso que eu penso na questão de forma e conteúdo, para mim, o conteúdo daquele material é a verificação. Eu vejo a verificação como esse elemento que vai me oferecer um dado sobre a realidade, que, no caso, é: – Olha, isso aqui realmente aconteceu ou não. Então, quando eu falo de forma de conteúdo, eu também penso nessa perspectiva, mas acho que realmente é algo a ser mais bem pensado. Acho que esses elementos que formam essa extradiscursividade são bastante interessantes justamente para a gente não esquecer a natureza relativamente instável das práticas jornalísticas. A gente está trabalhando com padrões, modelos, formas socialmente partilhadas e aceitas em determinados contextos que vão, ou não, se manterem em razão de uma série de elementos. Esses elementos são extralinguísticos, de fato.

Por exemplo, os influenciadores. Eu estou olhando para isso ainda com certo temor, não sei se quero me aventurar a olhar muito para isso, mas de alguma maneira a gente precisa porque isso está nos currículos, inclusive lá na minha instituição. Mas na Casper Líbero, no currículo novo do curso de jornalismo, tem uma disciplina que coloca os influenciadores lá no meio. Nós tivemos um encontro com o Rodrigo Ratier, professor da ECA-USP, que nos trouxe algumas percepções de uma visita que ele fez aos Estados Unidos no ano passado. Ele visitou empresas jornalísticas, instituições de ensino de jornalismo. Essa questão dos influenciadores está na pauta, está no currículo, está entre as questões a serem tratadas por essa comunidade ligada ao jornalismo. Portanto, a gente vai ter que daqui a pouco começar a pensar. Isso vai alterar a forma? Ainda que a gente possa argumentar, falar assim: – Olha, eu acho que o TikTok não ajuda em nada o trabalho do jornalista, o compromisso do jornalismo, a não ser, recorrendo ao termo do pensamento marxista, pelo seu valor de troca, mas do ponto de vista daquilo que o jornalismo tem a oferecer eu realmente não vejo. Mas o TikTok está aí. Então, o que você está fazendo no TikTok? Como que isso está sendo mobilizado e até onde isso vai chegar?

Eu realmente considero que pode ser bem interessante, essa análise, não só de influencers, mas da independência, eu diria, que o indivíduo jornalista ganhou para o bem ou para o mal, com a web. Então, se eu tenho um Leandro Demori criando vários produtos, existe a possibilidade hoje, antes inexistente, de você ter um indivíduo que vira uma marca, mas muito mais forte do que, por exemplo, um colunista, que também é uma marca. Quem tem uma boa definição é Ducrot[viii], lá em 80. A ideia das dimensões que um indivíduo toma a partir do discurso. Na própria retórica de Aristóteles[ix] já estava, mas era de uma maneira diferente que ele pensava. De qualquer sorte, o caráter do locutor, enfim, sempre esteve na discussão. Eu considero que para nós do jornalismo, pensar esses lugares dentro do discurso, ajuda muito a entender. No caso dos influencers, por exemplo, entender o lugar de locutor, enunciador e sujeito empírico ajuda muito a compreender. Tem todo o extralinguístico que está relacionado às redes que o sujeito faz parte. Eu considero que isso é importante.

Sim, que é importante eu não tenho dúvida. Eu acho que tem que se debruçar mesmo, porque isso está mexendo no modo de produção. Eu acho que a questão vai um pouco além da gente pensar só também a lógica das redes sociais. Porque essa lógica criou outro sujeito, outro ator social com certas dimensões e que está em relação com o jornalismo, embora não seja do jornalismo. Mas está, de alguma maneira, provocando desestabilizações nos modos de produção do jornalismo.

Indo para a segunda pergunta, a questão da finalidade é um aspecto definidor do gênero para a grande maioria das investidas a respeito dos gêneros. Então, partindo ou chegando à finalidade, eu lembro dos seus textos, que também vão pensar se a finalidade está lá na frente, se a finalidade está antes, esbarra-se sempre nesse objetivo final do gênero, que é fazer circular determinado conjunto de narrativas sobre o cotidiano, a sua forma, a sua organização. Na sua avaliação, a pragmática pode contribuir para pensarmos essa finalidade de uma maneira mais ajustada à compreensão do público receptor do jornalismo? Se a gente está falando de finalidade, é finalidade que vai ser endereçada a alguém. Como que a gente pode pensar essa relação com o público receptor a partir de pressupostos da pragmática?

Sim, eu considero que a pragmática é fundamental. Ela nasceu lá em 70 com o Austin[x] e depois, em 95, o Searle aprofundou. A pragmática defendeu que existem atos verbais feitos através da linguagem. Pela fala, se produz ações. O que eu quis foi trazer isso para o jornalismo. Afirmar não é apenas escrever uma frase que pode ser verdadeira ou falsa. Há um compromisso relacionado às finalidades do campo. Parece muito utópico, muito bonito, mas, no fundo, é disso que se trata. Ainda que não se possa dizer que é conscientemente realizado.

Tem um conceito que eu gosto muito, que não é da pragmática da comunicação, mas é dos estudos culturais, de um autor chamado Mittel (2001). A mesma ideia na qual se baseia o gênero: a ideia de estabilidade em fluxo[xi], trabalhada pela professora Itânia [Póscom], daqui do programa. Para mim, a estabilidade em fluxo revela bastante da pragmática. Porque se trata das ações verbais produzidas dentro dos produtos. É uma concepção que vem do meu trabalho didático, na disciplina Oficina da Comunicação Escrita [na Facom-UFBA]. Essa discussão da finalidade, para mim, se tornou muito óbvia. Sabe? É algo difícil de trabalhar, mas eu acho que é algo extremamente importante. Eu diria que no Brasil ninguém fez isso ainda. Eu não sei até que ponto você concordaria comigo. Na tese, eu tinha a pretensão de sair da finalidade colada no formato, da finalidade da superfície discursiva. Na hora eu disse: – Não é só isso. Mas então é o quê? Faltou essa discussão da relação entre a finalidade do campo e a finalidade dos formatos.

Eu acho que esse é um ponto de tensão que, de fato, carece de aprofundamento. Eu acho que ninguém chegou a uma constatação que dê conta disso. Até porque se a gente voltar à resposta da pergunta anterior e à minha intervenção também, quando a gente vai olhar para esses elementos todos, a questão de forma e conteúdo, às vezes a gente vai ver algumas aproximações, alguns distanciamentos, coisas que combinam entre si, coisas que são aparentemente opostas. Como que isso se organiza? Eu acho que essa é a chave da questão para a gente poder pensar. O texto da Itânia Gomes se chama justamente “Estabilidade em Fluxo: uma análise do Jornal Nacional”[xii]. Ela traz o Mittel e a sua compreensão dos gêneros como um elemento cultural. Se a gente for olhar para isso, tentar intencionar essas múltiplas coisas, a gente vai ver que o gênero é um instrumento de negociação. Ele está sendo mobilizado entre variadas negociações. Negociações institucionais, sociais, entre agentes. Ele está ali no centro da disputa do jornalismo. E aí eu vou voltar com a minha fixação pelo Bourdieu. Eu vou retomar esse pensamento de que essa disputa entre agentes que se dá dentro do campo, interno e externamente, sempre em vista da legitimação, passa justamente pela questão do gênero, porque é o gênero que vai de alguma maneira atrair essas forças que garantem a legitimação do campo. Vamos pensar um pouco epistemologicamente. Quando a gente está falando do gênero jornalístico, a gente está pensando num objeto tão problemático quanto o próprio objeto da comunicação. Vocês em algum momento já viram alguém perguntar o que é comunicação, é ciência? É arte? Qual é o objeto da comunicação? Então, acho que, de alguma maneira, o gênero está para o nosso campo de pesquisa do jornalismo assim como está o próprio objeto da comunicação para os teóricos da comunicação. O que são os gêneros e que lugar eles ocupam no processo jornalístico?

Eu gostei da possibilidade de reflexão. Eu não creio que eu consiga responder, mas eu acho que a gente pode avançar. Na minha concepção, os gêneros jornalísticos são efetivamente composição discursiva regulares do fazer jornalístico. São composições discursivas porque se apresentam como tal, mas regulares do fazer jornalístico. Composições discursivas regulares do fazer jornalístico. É nisso que eu acredito. Assim como a professora Carolina Temer chamou atenção no encontro do GP de Gêneros Jornalísticos da Intercom, os gêneros chegam a moldar a dinâmica da prática do fazer jornalístico. O que se produz está antes gestado no gênero ou no formato a cumprir. Na pauta, na decisão do que deve ser feito, decide-se, a partir dali, a forma, a maneira de apurar, o que fazer. Eu creio que tem essa amplitude dentro da prática, da lógica, da dinâmica. Por que composição discursiva? O que eu quero dizer com isso? Eu estou pensando realmente na análise do discurso. Eu acredito que alguns elementos, algumas categorias da análise do discurso, talvez nos ajudem. Juntamente com a pragmática e a teoria da argumentação.

Por exemplo, eu acredito que todo discurso tem história. O sujeito não é a origem de um discurso, tem o dialogismo, tem a intertextualidade, as ações verbais são implicadas por poder. Por isso discursivo. Eu considero que esses elementos participam da definição. Essa ideia de estabilidade em fluxo, para mim, é muito boa porque significa que está sempre em negociação. O gênero é uma espécie de prática social discursiva, prática social e discursivo. Prática social discursiva porque se dá no âmbito do discurso. Se trata de uma composição discursiva. Tem que ser formatado, tem que ser publicizado para circular. Sem isso não acontece, não existe, não é gênero. Para ser gênero um formato deve ter estabilidade. Muitos formatos aparecem e desaparecem todo o tempo.

Por exemplo, quando eu comecei a fazer a tese, lá em 2004, a discussão do jornalismo na web estava forte. Começou a ganhar força no Brasil em 2000. Alguns formatos eram considerados potenciais. Por exemplo, o fórum. Não existe mais. Alguns formatos se mantêm, outros desaparecem. Alguns desaparecem por uma configuração de elementos extralinguísticos. Você vê como o rádio está forte hoje em dia? O que é o podcast? O podcast é gênero? Não. O podcast é um formato, como um vídeo. E daí? Eu posso ter diversos tipos de vídeos. Voltando para a questão, eu entendo que é uma prática social discursiva. A questão é o que tem de prática social, o que é que há de discursivo e qual a relação entre essas duas.

Eu acho que é bem isso. A gente está falando de uma atividade essencialmente discursiva. Ela se faz um discurso. O jornalismo não é outra coisa senão discurso. Chaparro diz que a palavra discurso vem de discorrer, discorrer daqui para ali, tirar daqui, por ali[xiii]. Esse movimento de discorrer tem vários elementos e me parece que um elemento muito importante, é o elemento do poder. O gênero também é uma categoria de poder, que revela esse poder estabelecido nessa dinâmica discursiva. É como você bem disse: o gênero antecede o dizer. Eu vou dizer dentro do gênero. O gênero já está posto, colocado como um elemento de poder. O repórter chega lá na redação e não vai escrever do jeito que ele quer. Ele vai seguir os parâmetros que já foram estabelecidos. Vai sair um pouco da linha aqui, ousar um pouco ali, usar da criatividade lá, mas a regra é essa.

Passando para a próxima questão, o livro “Gêneros: Um diálogo entre comunicação e linguística”, organizado por você e pela Najara Pinheiro, tem um intervalo já de uma década. Você considera que ainda é pertinente a gente pensar os gêneros a partir da chave lingüística ou seria mais viável aderir a outras perspectivas teórico-metodológicas e por quê?

Eu nunca considerei que a questão do gênero é apenas linguística, mas eu considero que é importante o diálogo, a relação com a lingüística, porque é extra e intralinguística. Quando a gente pensa a ideia de lógica enunciativa, quando a gente começa a tratar do problema da relação entre realidade e linguagem, como se dá a relação entre linguagem e discurso, a gente tem várias concepções de um lado, de outro. Essa eu acho que é uma das questões de fundo. Uma questão que vai para um fundamento do jornalismo, a verdade ou a verificação. É a mesma questão. A relação entre proposição e realidade, como diz a pragmática é a questão da ação e da verdade. É verdadeiro ou falso ou não pode ser verdadeiro ou falso. A questão da verdade sempre vai entrar. Nesse sentido eu não considero que é linguístico. É linguístico e extralinguístico. Daí essa busca pela Teoria da Argumentação, pela pragmática, pela retórica para tentar compreender o que não era linguístico, o que está fora do linguístico. Por exemplo, a Teoria da Argumentação, de Ducrot (1984). Essas dimensões do autor, de locutor, de enunciador, são dimensões que, embora apareçam como marcas do linguístico, são extralinguísticas. Entende? Então a busca foi sempre assim, a partir do linguístico chegar no extralinguístico. A lingüística, desde que ela nasce e ganha força… a gente pode pensar até em textos clássicos, lá de 1913.

Uma sugestão relacionada à literatura, o conceito de autoria nos ajuda muito a entender o lugar do jornalista hoje. O jornalista hoje ganhou uma explicitação, ele aparece, uma individualização, uma personalização, grande nível de autoridade[xiv] em relação ao que tinha antes, por causa das mídias digitais. Nunca considerei apenas linguístico, mas considero que a linguística traz uma série de categorias que nos ajudam a compreender.

Eu acho que há uma dimensão transdisciplinar inerente ao objeto gênero jornalístico. Falamos aí dos estudos culturais. É uma área para a qual a gente olha pouco e, com certeza, há muita contribuição, mas sempre nessa dinâmica de composição, de um painel multidisciplinar, transdisciplinar, que é uma lente bastante interessante para pensar o gênero, mais do que simplesmente uma linguagem ou um texto com determinados elementos. Nesse sentido, considero que realmente a gente precisa conjugar esses saberes. Acho que os textos fundadores dos estudos culturais – o próprio Raymond Williams[xv], com sua ideia dos usos da cultura – oferecem muito para a gente pensar.

Na próxima questão eu retomo a sua tese. Fui lá nas conclusões e você propõe a classificação dos gêneros em duas categorias: gêneros discursivos jornalísticos e gêneros discursivos jornálicos. Eu tenho duas questões a partir disso. A primeira parte é a seguinte: dando ênfase à dimensão discursiva, em detrimento do saber jornalístico, não se corre o risco de desconsiderar o conhecimento próprio do campo e distorcer apreciações? E aí está uma preocupação que às vezes eu tenho comigo mesmo. Será que eu não estou olhando para outra coisa, que não necessariamente o jornalismo? Pensando nessa dimensão discursiva, será que eu não estou pensando nisso como uma outra categoria que não do próprio jornalismo? Será que eu não estou me deslocando muito do saber jornalístico? Então, queria te ouvir um pouco a esse respeito. E já antecipando a segunda parte da questão: essa subdivisão, entre jornalísticos e jornálicos ainda se sustenta? Você acha que dá para a gente manter, inclusive a terminologia? Porque quando a gente fala de jornálicos, a gente está pensando em jornal. Ok, jornal não é só a materialidade do papel, ou o objeto jornal que chegava na casa da gente. Eles continuam existindo como instituições e estão cada vez mais transmidiáticos. Mas esses conceitos são ainda oportunos, eles precisam ser atualizados? Como que você tem olhado para essa conclusão que você chegou em 2008?

Eu percebi recentemente que coloquei uma nota de rodapé, não na tese, mas no artigo de síntese sobre jornalístico e jornálico, que é um termo cunhado por Brin, Charron et De Bonville, no livro “Natureza e transformações do jornalismo”[xvi]. Eles tentaram diferenciar o texto que é produzido dentro da dinâmica da produção jornalística e o texto que não é produzido dentro da dinâmica. Isso, para mim, é muito interessante. A gente sabe da quantidade de formatos que são produzidos dentro da dinâmica de produção jornalística e aqueles que não são. Vamos pensar em exemplos bem antigos, do dito jornal, que eu entendo que vem da ideia de journée, da ideia de dia, de cotidiano. No fundo é aquele produto do dia. O que está virando produto do dia? O podcast, além da edição digital. Hoje 24 horas é um tempo vasto, que era o menor tempo naquela época.

Não sei ao certo se os termos jornalístico e jornálico devem se manter, mas a concepção, sim. O que eu quero dizer? Um articulista, por exemplo, não tem nenhuma relação com a dinâmica produtiva do jornal. Até, muitas vezes, um crítico de artes plásticas, que circula nas redes, circula nos museus, circula nas vernissages, não vai à redação e já não ia há muito tempo. Então por que o texto é jornalístico? Por que aquele gênero seria jornalístico? E por que não jornálico? Para mim, é óbvio que a crônica não é jornalística. A crônica é jornálica. A crônica não tem nenhuma relação com a dinâmica jornalística. Nesse sentido, eu estou falando do extralinguístico, da prática, da dinâmica produtiva. Eu acho que essa diferenciação deve se manter.

Hoje a gente entra em uma plataforma como o Instagram e todos os formatos são parecidos. Se a gente investigar as condições de produção e a maneira de se produzir a gente pode vir a compreender o que faz, ou não, parte da dinâmica. Por exemplo, o próprio branded content. Na minha concepção estamos na infância, de algo que vai crescer. Eu e a minha filha aqui há pouco assistindo vídeos pelo YouTube. Ela me disse assim: “Mamãe, parece que é alguém que está desenhando, mas é para vender, mamãe. Eu detesto esses vídeos porque são para vender. Ele fica mostrando o material e vai tirando, mas é para vender”. Ela tem oito anos.

A gente sabe muito pouco sobre a dinâmica do reconhecimento. A gente fala do gênero daqui de trás das câmeras e a gente não discute o reconhecimento. O reconhecimento é cultural, tem a ver com a idade, tem a ver com a mídia, tem a ver com a cultura. Eu defendo que o reconhecimento se aproxima de uma alfabetização, a media literacy, um conhecimento que vai modificando. Eu fiz um exercício lá na sala de aula com o pessoal que tem 18 anos sobre esse reconhecimento da notícia no Instagram e coloquei propositadamente dois perfis bem diferentes: um bem ligado à editoria de local, que cobre o dia a dia, e outro de uma agência de comunicação, voltada para o marketing. Eu pedi no exercício: vamos identificar a notícia. Onde está a notícia? O que é que é notícia? Eles identificaram tranquilamente, sem nenhuma discussão. Na segunda aula, sem qualquer discussão anterior. Aqui me parece que é mais marketing. Sabe? As marcas, a identificação. Eu não sou daquela pessoa pessimista, que diz assim: não há um reconhecimento. Não é bem assim. Não é assim para o usuário leitor.

Se a gente pensar algumas práticas que foram sendo incorporadas pelos veículos ao longo da história, elas se mantiveram porque houve esse reconhecimento. Então se a gente pensar no antigo informe publicitário, que agora é marketing de conteúdo ou qualquer outra coisa desse tipo, isso já está posto. Agora a questão é: como que a gente coloca isso no caldeirão dos gêneros? Se a gente pensar outras discussões que sempre tiveram aí como a própria questão da assessoria de imprensa. É jornalismo? O que ele faz ali? Para a gente pensar algumas tensões que estão dentro e fora das relações, intra e extralinguísticas. Você falou dessa percepção do jornálico como algo que está fora da dinâmica jornalística. Como a gente pode delimitar essa dinâmica jornalística? O que de fato define?  Porque eu acho que quanto mais o trabalho do jornalismo for afetado por uma flexibilização, isso altera a dinâmica. Então você disse há pouco sobre a questão do crítico ou mesmo do articulista, do colunista, que não tem qualquer ligação com o jornal. Às vezes ele mora em outro estado. Agora, o jornalista também. Porque hoje o repórter também pode ter essa mesma relação. A diferença é que ele vai ouvir a fonte, vai entrevistar, se é que vai. A minha questão é, a gente tem alguns elementos para se apoiar e dizer: a dinâmica jornalística está delimitada nesse conjunto de elementos ou isso ainda é algo a se pensar?

Curioso, porque eu acho que tem a ver, inclusive com a discussão de teorias do jornalismo para gênero. Embora a dinâmica tenha modificado bastante, com vários arranjos, eu acredito que existem fundamentos jornalísticos. Por exemplo, um perfil criado no Instagram, apenas no Instagram, de jornalista comunitário de um bairro de Salvador, Santo Inácio, um bairro bem popular, vai criar produtos ali que, para serem notícia, vão trabalhar com os mesmos fundamentos da Folha de S. Paulo, do O Globo, do Estadão. Esta é a minha concepção. Posso estar sendo otimista, mas eu acredito na fundamentação da hierarquização. Nilson Laje colocou como fases, mas que eu considero que são fundamentos: nomeação, seleção e hierarquização[xvii]. Para mim são base do jornalismo. Quando eu afirmei que para falar de gênero precisamos entender quais são os elementos fundamentais do jornalismo, era disso que eu estava falando. Eu estou fazendo um exercício com o Instagram. É uma plataforma muito utilizada no Brasil, por todos os produtos. É onde está o público. No último relatório da Reuters, depois do WhatsApp e Facebook, vem o Instagram. É no Instagram que se diz muito que todo formato é tudo e nada é nada. Então é ali, contra tudo e contra todos, digamos assim, que é possível pensar quais são os fundamentos. Como você vai fazer isso? Vai trabalhar a partir de quê? As dinâmicas mudaram muito, mas se há hierarquização, é possível ver a relação entre realidade e proposição. No Instagram independente do título-lide dentro da imagem, porque a composição da imagem ganhou uma importância tão grande que a legenda quase não tem importância no consumo no Instagram, pode-se ter hierarquização. Aí você afirma: “A dinâmica mudou muito, a alteração é muito grande”. Mas eu considero que existem fundamentos que são possíveis de serem detectados, entendidos, estudados, e que, ainda que o formato pareça embaralhado, é possível reconhecer o gênero. Ainda que o formato, o shape, a forma, pareça trazer um gênero, traz outro. Isso é muito interessante porque parecia que formato e gênero estavam colados, mas não. Nesse momento, posso dizer que existem formatos que são contra o próprio gênero que está ali dentro, digamos assim. Entende?

Sim. A gente pensa, talvez, o gênero e o formato numa perspectiva um pouco diferente, porque, para nós, o formato está submetido ao gênero, e não o gênero ao formato. Mas, na minha própria tese, eu trago, como proposta, pensar que tem formatos que, em razão das circunstâncias, adquirem autonomia e eles transitam entre gêneros. É o caso da reportagem. Na minha leitura, a reportagem não é só informativa. Ela pode ser informativa, mas ela também pode ter outras dimensões, a depender de como ela é mobilizada, mas justamente porque ela adquiriu essa autonomia em razão das circunstâncias. Bom, só complementando: nessa perspectiva, se a gente for olhar um pouco para a inteligência artificial e pensar… por exemplo, uma das coisas que se falou bastante nesse semestre é que os veículos jornalísticos já usam da inteligência artificial há bastante tempo. Tem muitos veículos cujas matérias sobre jogos já são produzidas com inteligência artificial, que é aquela matéria básica dizendo quanto foi o jogo, quem ganhou, de quanto a quanto. Então, por essa lógica, ainda assim isso está dentro dos gêneros jornalísticos porque obedece a esses critérios, como você bem colocou aí, da hierarquização, da seleção. Aquilo que se produz estaria dentro desse quadrante. Até mesmo porque a própria estrutura textual é anterior e é justamente a estrutura do texto jornalístico. Ou seja, a inteligência artificial só executa algo que já existe.

Eu diria que meu conhecimento em inteligência artificial é muito pequeno e eu acho que tem muita coisa para acontecer, mas eu comecei a fazer uma comparação do texto da lógica hierárquica e da lógica do aprofundamento, que está na pirâmide deitada de Canavilhas[xviii], com a lógica do texto SEO, que é o texto da otimização de busca. Não são duas lógicas que não coadunam. A lógica hierárquica e a lógica do aprofundamento caminham juntas. Por outro lado, há sempre a hierarquização da abertura de uma composição. Mesmo na TV: cabeça e VT. Há sempre, se você pensar, em qualquer mídia, em qualquer tipo de produto, uma relação entre os elementos de edição com a composição interna. Então, os elementos de edição são sempre os highlights, são eles que circulam no Twitter. No jornalismo, é sempre o destaque e o highlight. Falar em highlight quer dizer: eu destaco algo. Se eu destaco algo, tem hierarquização. Então, a lógica hierárquica está no jornalismo. Agora, se você me pergunta em relação ao banco de dados, no sentido da inteligência artificial, se eu jogo no Chat GPT4 e eu peço uma notícia, facilmente tenho o formato da notícia. Eu acho que eu deveria fazer essa análise para, inclusive, perceber se mantém uma certa hierarquização nos primeiros parágrafos. Eu não tenho certeza sobre isso. Quando o evento é um jogo, o resultado do jogo abre o texto. O resultado do jogo seria como que o resultado do fato. Esses conceitos de hierarquização, atualidade, fato e evento, objeto de realidade, verdade, para mim auxiliam a compreender o gênero, porque o gênero é uma composição discursiva jornalística. Sabe?

Como os recursos. Porque se a gente pensar, a inteligência artificial é isso: é um recurso. Assim como a máquina de escrever antigamente era. É um recurso que você utiliza.

É, mas a diferença desse recurso, digamos assim, é o aprendizado. Neste momento agora, eu creio que o ChatGPT está com 700 milhões de usuários, cada um desses testando dados de altíssima complexidade, como a medicina tem usado, a advocacia tem usado. Se você imaginar: quantos jornalistas, neste momento, estão incluindo dados no ChatGPT? Eu acho que em breve, alguns trabalhos bem chatos podem se feitos pela inteligência artificial. Tem outra questão aí, do mercado de trabalho. Eu estou me propondo, inclusive, a fazer agora enquanto pesquisa, numa coleta de tradicionais, trabalhando com plataformas onde parece que todos os formatos são iguais. Estou fazendo uma comparação, inclusive, até tentando ali com a inteligência artificial ver em que medida eu posso considerar que essa lógica existe.

Muito bem. Bom, então chegamos aqui à última pergunta, que retoma aí a questão dos fundamentos teóricos do jornalismo, ou fundamentos definidores, elementos estruturantes do jornalismo. No seu artigo “Teorias de Jornalismo para Gênero Jornalístico”, que é um artigo que está lá na Galaxia, de 2013, você aponta algumas dimensões estruturantes da teoria do jornalismo como critérios para tensionar a compreensão dos gêneros. Ali você dizia que era uma abordagem inicial de uma pesquisa. De lá para cá, que mudanças você identificou nessas percepções a respeito das teorias do jornalismo, os fundamentos teóricos do jornalismo e sua relação com a compreensão dos gêneros?

Francisco, essa questão me fez voltar ao artigo. No artigo eu destacava instantaneidade, periodicidade, a discussão fato-evento, finalidade e valor notícia. Eu diria que esses elementos se mantêm, mas com alguma atualização. Não dá para falar em instantaneidade, que é a relação entre ocorrência e publicação[xix], sem falar em atualidade. Para mim instantaneidade está dentro da atualidade. Agora eu escreveria atualidade. Eu estou chegando à conclusão de que atualidade é um valor jornalístico, que é um fundamento do jornalismo. Eu diria que esses elementos, no fundo, são fundamentos para mim. Eu considero que é crucial uma discussão – que a gente não fez no campo no Brasil – sobre fato, evento, acontecimento. Como é que a gente vai estudar o objeto de realidade ou a realidade em relação à proposição e à linguística? Ano passado tivemos uma aula com o professor Josenildo Guerra, que está pensando o conceito de acontecimento a partir de Louis Quéré[xx]. A gente ouviu, pensou, não avançou enquanto grupo. Então: atualidade, objeto de realidade, fato, acontecimento, finalidades são noções que precisam ficar bem explicadas na concepção de gênero. Eu acho a noção de valor-notícia menos importante para pensar gênero porque eu considero que o valor-notícia está nos ditos informativos e opinativos, pegando a divisão clássica. Está em tudo. Talvez a gente possa pensar nos valores-notícia como um saber intersubjetivo gestado no campo jornalístico. Essa é uma discussão que eu estou fazendo atualmente. Considero que esse aspecto provavelmente não auxilia a entender gênero. Por isso ele aparece inclusive em segundo, mas considero que é um dos fundamentos do jornalismo, talvez não do gênero. Então, o que eu atualizaria ali? Eu tiraria instantaneidade, pensaria atualidade, a discussão de fato e acontecimento, que ainda não foi feita, a relação entre finalidades do campo e finalidades do formato também não foi feita e acho que valor-notícia é menos importante nessa discussão, inclusive porque eu considero que valor-notícia é diferente de noticiabilidade. É realmente algo gestado dentro da comunidade de sentido do campo jornalístico. Às vezes eu tenho resistência a falar em campo jornalístico, confesso.

Em geral, os valores notícia, a gente pode pensar que eles são um saber transversal. Eles perpassam aí os diferentes gêneros, mas eles não são o elemento que vai definir. Tem aí outras, prioridades, outras precedências para considerar essa constituição do gênero.


[i] O conceito de formação discursiva: “No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (…), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado carregadas de condições e consequências, inadequadas, aliás, para designar semelhante dispersão, tais como “ciência”, ou “ideologia”, ou “teoria”, ou “domínio de objetividade”. […]” (Foucault, [1969]2005, p. 43).

[ii] O objeto de realidade é aquilo existente na realidade que pode ser percebido por um sujeito. O objeto de realidade pode ser fato, evento, fenômeno, portanto ação verbal, mas também uma não ação, algo existente na realidade independente do sujeito. Um quadro de objetos de realidade foi construído com fins de questionar a hegemonia do fato.

[iii] Jauss, H. R. Pour une esthétique de la réception. Paris: Gallimard, 1978.

[iv] “[…] Nós falamos geralmente de fatos para designar objetos de acordo precisos, limitados; entretanto, designaremos de preferência, com o nome de verdades, sistemas mais complexos relativos a ligações entre fatos ou de concepções filosóficas ou religiosas que transcendam a experiência.” Tradução livre (Perleman; Olbrechts-Tyteca, 2000, p. 92).

[v] Reginato, Gisele. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. Florianópolis: Insular, 2019.

[vi] Schudson, Michael. News and democracy Society: past, present and future. In: The Hedgehog Review, Vol 10, No 02, summer 2008.

[vii] Seibt, Taís. Jornalismo de verificação como tipo ideal: a prática de fact-checking no Brasil. Tese de doutorado. UFRGS, 2019.

[viii] Ducrot, Oswald. O dizer e o dito. Campinas, SP: Pontes, 1982.

[ix] Aristóteles. Rhétorique. Pris: Gallimard, 1991. Notadamente no livro II, destaques nas páginas 108 e 109.

[x] Austin, John. Quando dizer é fazer. Palavras e ação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

[xi] “[…] A teoria do discurso oferece um modelo para essa estabilidade em fluxo – os gêneros funcionam como grupos discursivos, e certas definições e definições e significados vêm junto em um determinado momento para sugerir um gênero coerente e claro. […]” (Mittel, 2001, p.11) Tradução livre. Mittel, Jason. A Cultural Approach to Television Genre Theory. Cinema Journal, v. 40, No. 3, 2001.

[xii] Gomes, Itânia. Estabilidade em fluxo: uma análise cultural do Jornal Nacional, da Rede Globo. In: Gomes, I. (org.) Análise de Telejornalismo: desafios teórico-metodológicos. Salvador, EDUFBA, 20012, 413p.

[xiii] Chaparro. C. M. Jornalismo: discurso em dois gêneros. In: Marques de Melo, J; Assis, F. (orgs.) Gênero Jornalístico e os Estudos Fundamentais. Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio, Edições Loyola, 2020.

[xiv] Roselyne Ringoot, através dos conceitos de ‘autor-respondnete’, ‘autor-ator’ e ‘autor-actor’ (Maingueneau, 2010), desenvolve o conceito de autorialidade jornalística. Ringoot, Roselyne. O ethos e a autorialidade na análise do discurso jornalístico. In: Seixas, Lia ; Ferrari, Najara (orgs.) Gêneros. Um diálogo entre comunicação e linguística. Florianópolis: Insular, 2013.

[xv] Williams, R. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979 [1977].

[xvi] Brin, Colette; Charron, Jean; de Bonville, Jean. Nature et transformation du journalisme : théorie et recherches empiriques. Sainte-Foy: Les Presses de l’Université Laval, 2004.

[xvii] Seixas, Lia; Santana, Eder. Fundamentos da notícia: análise da seleção, ordenação e nomeação propostas por Nilson Lage. Estudos em Jornalismo e Mídia, v.19, n.1, jan./jun. 2022.

[xviii] Canavilhas, João. Canavilhas, J. (2006). Webjornalismo: Da pirâmide invertida à pirâmide deitada. In S. Barbosa (Org.). Jornalismo digital de terceira geração, Covilhã: Livros LabCom.

[xix] Groth, Otto. O  poder  cultural  desconhecido.  Fundamentos  das  Ciências dos Jornais. Trad. Liriam Sponholz. Petrópolis: Vozes, 2011.

[xx] Quéré, Louis. A dupla vida do acontecimento: por um realismo pragmatista. In: FRANÇA, Vera Regina Veiga; OLIVEIRA, Luciana de (orgs). Acontecimento: Reverberações. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012. p. 21-38.